Sign up with your email address to be the first to know about new products, VIP offers, blog features & more.

Simone de Beauvoir sobre o feminismo

Aos quinze anos, dei início no Diário do Centro do Mundo a uma coluna cujo conteúdo e nome foram-me sugeridos pelo meu querido pai: “Conversas com Escritores Mortos”.

Resumidamente, a proposta era reunir trechos das principais obras de escritores notáveis e transformá-los em uma espécie de entrevista fictícia, nas quais uma parte considerável das ideias dos literatos em questão fossem apresentadas de maneira clara e resumida.

Ao assumir a editoria do Ladies’ Mag, ocorreu-me a possibilida de reviver a coluna que por tanto tempo ocupou parte de meu pensamento e de minha dedicação. Mas não seria adequado limitar-me a retomá-la – seria conveniente reformulá-la de modo a adequá-la ao gosto e ao estilo das leitoras com as quais passaria a dialogar.

Em primeiro lugar, minha tia sugeriu a ideia de fazer uso somente de textos de mulheres notáveis. Em seguida, optei também por selecionar temas que pudessem ser úteis e interessantes às mulheres modernas.

E por onde começar? Talvez por Simone de Beauvoir, uma das principais feministas de todos os tempos. Estando o feminismo em voga, ocorreu-me que esse consiste em um tema de suma importância – e aqui estamos. Os trechos abaixo foram, em sua grande maioria, retirados das obras O Segundo Sexo, Os Mandarins, A Mulher Destruída e Por Uma Moral da Ambiguidade.

Através da sua obra e de sua militância, Madame de Beauvoir, a senhora não deixou de defender os direitos da população feminina. O mundo em que nós vivemos lhe parece excessivamente machista?

Vivemos num mundo patriarcal, e nenhuma das razões que me foram apresentadas para isso parecem-me adequadas. O único modo que nós, mulheres, temos de lidar com essa pretensa inferioridade feminina é a partir da desconstrução da superioridade masculina. Antes de mais nada é necessário que saibamos que nós não nascemos mulheres, nós nos tornamos mulheres.

Diante disso, qual deve ser o nosso objetivo?

A conquista da liberdade para fazer o que bem entendermos com a nossa vida. Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância.

Quando uma mulher assume uma postura considerada “masculina”, é usual que seja severamente criticada. A senhora acha que essa situação poderá ser revertida um dia?

Alguns definem os homens como seres humanos e as mulheres como fêmeas, e portanto toda vez que uma mulher age como um ser humano acusam-na de estar tentando imitar os homens. Dizem que é um mal da época em que vivemos, e que isso mudará no futuro. Mas eu não quero esperar para ver. Mude sua vida hoje. Não aposte no futuro, aja agora, sem atraso. O fato de que todos somos seres humanos é mais importante do que todas as peculiaridades que diferenciam uma pessoa da outra.

E quanto à sua personalidade? A senhora diria que, apesar de suas intensas convicções, foi uma pessoa de fácil convivência?

Sou terrivelmente gananciosa. Quero tudo da vida. Desejo ser uma mulher e um homem, ter muitos amigos e momentos de solidão, trabalhar e escrever bons livros, viajar mundo afora e divertir-me, ser egoísta e altruísta alternadamente…

A senhora foi uma escritora talentosa. Desejava escrever desde pequena?

Quando eu era criança, e mesmo quando eu já era adolescente, os livros me salvaram do desespero, e isso serviu para me convencer de que a cultura é o maior dos valores.

Qual o maior privilégio de seguir a profissão de escritora?

No papel, você pode dizer exatamente o que está sentindo. É muito fácil quebrar objetos nas páginas de um livro. Você odeia, você grita, você mata, você comete suicídio – enfim, você leva tudo até o fim. E é por isso que é apenas uma farsa. Mas é uma farsa satisfatória. Na vida, estamos constantemente negando a nós mesmos e os outros contrariam-nos com frequência. É por isso que considero a escrita uma ocupação encantadora. No papel, posso fazer com que o tempo pare e impôr as minhas convicções para o mundo inteiro – elas se tornam a única realidade.

A senhora acredita que, para uma mulher ser de fato emancipada, é preciso que recuse a ideia do amor?

Estou mais disposta a negar a existência do espaço e do tempo do que admitir que o amor pode não ser eterno.

Seria a homossexualidade menos limitada do que a heterossexualidade?

Em si, a homossexualidade é tão limitada quanto a heterossexualidade – o ideal é sermos capazes de amar um homem ou uma mulher sem sentirmos medo, repressão ou obrigação. O ideal do amor e da verdadeira generosidade é dar tudo de si, mas sempre sentir como se isso não houvesse lhe custado nada.

Alguma consideração final?

Lembre-se sempre que são pouquíssimos os crimes que recebem um castigo pior do que o seguinte erro: colocar-se inteiramente nas mãos do outro e, por isso, ficar à mercê dele.

Ainda sem comentários.

O que você pensa?

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *